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05 dezembro 2021

Eu sinto tanto e não sinto nada, e às vezes eu culpo você

eu morreria de ódio
só para punir em culpa
a eternização daquele episódio
e a ausência que você ocupa

você reviveria todos os dias
todas as vezes que eu disse que estava perto
e que o destino se aproveitou
no fatídico chão de concreto

eu morreria de raiva
no instante que você escolheu fingir que eu não falava nada
mesmo que isso custasse
o vazio que me restava

eu gritaria os insultos absurdos
que me engoliram no limbo asfixiante
devoraram minha alma
e cuspiram em você o inevitável futuro minguante

eu morreria de dor
sob o remorso de todas as minhas ruínas
com um toque que destrói
na mesma intensidade que fascina.

02 setembro 2021

aquele que eu pensei que ia morrer

Três vezes na vida eu pensei que iria morrer. Em todas elas carregava a plena convicção de que sairia até nos jornais "ela sabia, ela vinha sentido isso há algum tempo, foi como uma despedida", como fazem com algumas pessoas importantes. E em todas elas estive errada. A última, por nenhum acaso, foi uma gripe, pegou-me de jeito e atirou-me na cama como um amante. Tudo que se fala em todos os lugares, qualquer portal de notícia e jornais que se lê, são as manchetes reforçando a letalidade daquele vírus maldito. Não poderia eu sair imune da minha própria paranoia.


À caminho do hospital, observando a paisagem do outro lado da janela aberta, deixava as memórias de toda a minha vida navegarem pela minha mente, as histórias que contariam sobre mim nos encontros entre amigos e família. Imortal, definitivamente. De forma alguma seria esquecível, pretenciosa ou não, acredito ser legendária como Van Gogh, talvez até meus textos ficassem mais famosos quando póstumos.

Estava mal, derrotada. Me sentia fraca e melancólica. Eu odeio ficar doente e odeio mais ainda hospitais. Pensei que se quando saísse dessa seria uma nova mulher. Ora, mais nenhum dos meus planos passariam batido. E eu tenho tantos! "Procrastinar" já não existiria no meu dicionário. Escreveria todos os textos que deixei para depois, pegaria a inspiração pelos braços e a enfiaria goela abaixo da minha garganta recém-curada. O impulso irrefreável de reviver depois do que pareceu ser o fim.


Tudo que não é essencial fica pequeno — pelo menos nos primeiros dias. A vontade de mudar o mundo, comer saudável, entrar na academia, enviar mensagem para todos os amigos que estão sem contato há muito tempo, dizer o que nunca foi dito, trocar o emprego e mudar para o campo (ou para uma mansão). Ah, e no prazo de dois dias, por favor, antes que a motivação se esvaia novamente.

Sobrevivi, afinal este não é um texto psicografado. Escrevo-o com minhas mãozinhas e uma mente que não dorme, sonâmbula de sonhos. Costumava detestar essa característica, que faz a fantasia se misturar com a realidade nos floreios dos meus olhos. Pois que seja assim! Minha história narrada na biografia ultrarromântica e onírica dessa poesia que me faço ser.

Um passo de cada vez, então.
A meta atual é não mais morrer em vida.

(o resto eu consquisto)

29 outubro 2018

A carta que eu espero que ninguém tenha que ler

Eu espero que entendam que ninguém poderia ter me ajudado. Nem suas entidades ou abraços apertados, nada poderia ser dito para mudar. Eu nasci assim e por mais que me esforçasse para viver, já estava morta há tanto tempo que uma ressurreição já não fazia sentido. E não é sua culpa ou de ninguém. Uma mente quebrada que não pôde ser consertada, nem com remédios nem força de vontade.

Acredito que estou escrevendo isso agora porque sinto que estou matando-me aos poucos e é bom deixar aqui para que no futuro, quando a covardia de um adeus tomar-me por completo, já estar registrado. Eu sei, quanta baboseira.

O vazio que eu sinto não vai embora. Eu me queimo, eu me corto e não sinto nada. Eu me magoo e desmantelo-me e nada. Eu não sinto amor, ódio ou felicidade. Somente dor. Rasga-me por dentro e explode em atitudes impensadas e compulsões destrutivas. Não me respeito, não me cuido, não me suporto. E peço desculpa, eu simplesmente não consigo tolerar mais um dia nessa pele. Nessa mente que não me deixa em paz não existe sossego.

Peço desculpas pelos danos irreversíveis. Sei que a dor que causarei será bem maior do que posso imaginar ou refletir a respeito. Espero que algum dia possam perdoar-me. Dói muito em mim também, mais do que posso suportar. Eu já estava morta antes do meu corpo sucumbir também. Eu escrevi a respeito, eu confessei, eu gritei no meu silêncio, acho que por muito esperei ser salva, até entender que ninguém poderia me salvar.

Aos que acreditam em reencarnação, quiçá nos encontremos novamente, quiçá eu seja alguém melhor. Aos que não, saiba que estarei em paz. Liberta das correntes que minha mente criou, da loucura que assombra-me e da agonia assola-me.

Peço perdão pelo egoísmo. 
Peço perdão pelos meus erros.
Peço perdão pelas palavras mal ditas e pelo que eu nunca disse.

Adeus.

22 outubro 2018

aquele da desistente de merda

Tem uma frase de Henry Ford que diz que "no mundo ha mais pessoas que desistem do que fracassam" e eu acredito nela tão fortemente que isso faz de mim uma contradição humana — também conhecida como "hipócrita". Afinal, não há nada na minha curiosa vida que eu não tenha rendido-me ao pavor do fracasso ou ao mero desânimo.

Eu desisti do diploma que estava tentando conquistar, porque, quando eu comecei a sentir o cheiro da derrota aproximando-se e toda aquela ansiedade acumulada que não permitia-me mudar o rumo que as coisas estavam tomando, eu decidi que a melhor opção era abandonar aquele curso — e, provavelmente, minha única chance de ficar rica. Covarde é a palavra que você está procurando.

Eu desisti do meu tratamento psiquiátrico porque eu não acho que o que quer que eu tenha pode ser curado com pilulas mágicas ou palavras de conforto — i'm sorry, it's true. Eu desisti do ballet, que era a melhor coisa da minha vida na infância e, neste caso, eu fui obrigada, porque eu não podia obrigar meus pais a continuar pagando por um hobby, quando, claramente, era melhor que eu ficasse em casa comendo compulsivamente e destruindo a minha vida afogada em ociosidade numa cidade nova e sem amigos — oh, sim, eu ainda os culpo por isso.

Eu desisti de todos os relacionamentos que tive. Neste caso, eu não sei explicar o fundamento disso, consigo pensar em muitas motivações, todavia, não tenho certeza de nenhuma delas. Quiçá, se quando eu me formar em psicologia eu possa entender. Acredito fortemente que deva ter algo a ver com minha descomunal insegurança.

Eu desisti de amizades; elas apenas não parecem reais. Acho que ninguém se importa de verdade, é só um monte de relações onde você tem algo a ganhar com aquilo reciprocamente, nem que seja algo emocional. Com raras exceções — ou não. Ok, isso soou muito frio e calculista, quase insensível. É o que sinto no momento, anyway.

Eu desisti de todo mundo. Sem expectativas, sem decepções. Quando a gente não espera nada de ninguém, tudo o que vem é bônus — fria como a morte, outra vez.

Eu desisti de mim.
Como pôde ser analisado, eu sou um péssimo ser humano, com ideias destorcidas, sérios distúrbios psíquicos e nenhuma motivação para viver. Provavelmente uma péssima companhia também. De qualquer forma, eu não fui a única, o resto do universo desistiu de mim bem antes.

04 outubro 2018

aquele da insegurança

acho que o ser humano é inseguro por natureza, a menos que você seja megalomaníaco ou narcisista patológico, a insegurança te afeta de alguma forma; social ou fisicamente. lamentavelmente, faz parte da nossa espécie se autoquestionar (essa palavra existe?) e não nos dar tanto crédito às nossas qualidades. você pode receber noventa e nove elogios, uma única pessoa te critica e pesa mais que tudo de bom ao seu respeito que você ouviu antes.


eu tenho sérios problemas de autoestima (ah, não diga!), distúrbios de autoimagem, problemas para me relacionar com o outro e lidar com meus sentimentos. isso mesmo, um pacotão de ansiedade e psicológico ridiculamente esquisito. eu costumava ser espontânea e extrovertida, do tipo que todo mundo na faculdade me conhecia e eu não sabia os nomes de metades deles; de uns tempos para cá, entretanto, afundei em isolamento e destruí meu talento de fazer amigos. 

tenho a impressão que eu distorço totalmente as relações na minha cabeça (embora tenha o costume de forçar-me a pensar logicamente, o que já me salvou de algumas furadas) e que eu me entrego bem mais às amizades e amores do que o contrário. sabe aquela sensação de que você não importa para o outro metade do que este significa para você? ou quando você está conversando com alguém com o constante sentimento de estar incomodando e não consegue relaxar, esforçando-se incessantemente para ser uma boa companhia e não o saco de batatas entediante que você se sente.

e quando eu digo "você", eu quero dizer "eu".

é solitário sob minha pele e eu não sei ser solitária. eu me coloco em situações e amizades patifes por um pouco de atenção e companhia, porque quando a gente não sabe o quanto a gente vale, todo pouco parece demais.

senti o impacto
o que me ajuda é tentar parar de tentar demais (que?). o clichezão da pega que diz "seja você mesmo": se gostarem, que bom, pode ficar, tomar um café, maratonar uns filmes de suspense comigo; se me detestar, paciência. uma reles mortal como eu não pode agradar todo mundo. embora saibamos que, na teoria, tudo é fácil as fuck, viver essas frases feitas de auto ajuda é que o bicho pega (e nos devora, roubando a vontade de tentar de novo).

01 outubro 2018

aquele da viagem que eu queria não ter feito

quando eu falo viagem, não imagine carros, aviões ou um longo cruzeiro pela europa. eu estou falando de viajar por dentro da sua própria consciência - ou do que restou dela - entorpecida por alucinógenos, de encarar seus demônios e todo o peso da sua existência sem nenhuma válvula de escape. eu to falando de uma panela de pressão prestes a explodir.


eu estive presa, quase literalmente presa, ao meu próprio desespero. eu não podia fechar os olhos, eu não podia esconder-me no abraço de minha mãe, eu não podia chorar e eu não podia pensar claramente. eu estava indefesa ao iminente ataque do coração que certamente viria a qualquer momento. eu podia sentir meu coração arder dentro da minha caixa toráxica, minha respiração definhar e minha mente mergulhar cada vez mais numa espiral de alucinações.

eu não faço ideia de porque drogas são tão glamourizadas na televisão, na internet e na mídia num geral. os adolescentes mais legais nos seriados são sempre chapadões, festeiros e amantes de sexo casual. essa é a referência que a gente tem, é o ideal que a gente persegue. não to dizendo todo mundo, claro que não, entretanto, entenda que generalizações são necessárias quando se trata de certos assuntos. estou falando da cultura pop drogada enraizada nas gerações mais atuais. os heróis da dessa juventude morreram de overdose, e isso é tratado com gloriosidade.

eu sempre fui muito influenciável e impressionável, eu acho. completamente. se eu leio um livro muito intenso ou vejo um filme muito emocionante (no sentido da palavra "que causa emoção"), aquilo martela na minha cabeça por dias, mexe com meu sono, meus sonhos e minhas decisões. é ridículo e essa foi uma das coisas que foram plantadas aqui dentro (de mim), eu queria ser legal, diferente.


eu fiz escolhas ruins, por toda a minha vida eu tinha duas ou centenas de alternativas e sempre escolhi errado. eu fiz maus amigos, descuidei de lindas amizades e floresci ervas daninhas. isolei-me na minha caixa de más decisões. esta noite, em questão, foi a pior delas.

eu nunca estive tão frente a frente comigo mesma e jamais odiei tanto essa versão que me tornei. nem nos meus sonhos mais loucos, minha realidade fora tão distorcida. eu não sei se foi só uma bad trip, castigo dos deuses, uma lição dos meus guias espirituais ou uma forte reação química ao meu psicológico esquizofrênico fragilizado; mas eu não quero passar por isso nunca mais.


e é só quando você está no maldito fundo do poço (outra vez), na epifania do cruel exílio, que você sabe quem não vale nem um minuto da sua companhia e a quem você deve sua vida.

27 setembro 2018

aquele que eu não sou mais a monica geller

Essas fases vem e vão como as ondas do oceano que crescem e desaparecem na areia. Ainda estou dormindo "cedo" e acordando razoavelmente no horário (não tenho mais disposição para levantar antes das nove), mas todo aquele blá blá blá de arrumar tudo, mudar minha vida e feijoada evaporou como uma panela de água aquecida a cem graus celsius.


Toda a situação num geral me deu vontade de assistir Friends pela quarta vez, embora eu tenha acabado a terceira há menos de um mês. Monica foi uma personagem que não se destacava muito para mim a princípio (exceto pelo casal com Chandler), no entanto, depois dessa sina repentina e efêmera, acredito que seja minha favorita agora.


Este textos tem referências demais a FRIENDS que ninguém perguntou. Não que alguém tenha perguntado de todo o resto, mas eu estou no fim do expediente e já não tem mais muito o que fazer por aqui.

Hoje a voz que fica na cabeça martelando um monte de asneira autodepreciativa estava bem forte, consegui mandá-la calar a maldita boca, mas não é como se tudo o que ela disse não fosse verdade; minhas pernas definitivamente são minha parte favorita no meu corpo, mas elas definitivamente também não combinam com a parte de cima e com esses ombros largos demais. E o fato de eu passar, - mesmo que o mínimo de - maquiagem todos os dias, só prova o quanto eu me esforço demais para não ser tão eu. Eu mandei a voz malvada calar a boca, mas sua honestidade é inegável.

Eu sigo fazendo um monte de coisas que eu não faço ideia de onde vão me levar. Porque, é como dizem, quando você não tem um destino, qualquer caminho serve.

21 setembro 2018

aquele que eu me tornei a monica geller

Ao que pode ser lido no repertório dos meus textos melodramáticos nos últimos tempos (e a muito além deles), eu estava com a pá na mão, cavando um pocinho fundo para me soterrar. Culpemos a poesia que corre nas minhas veias e que faz tudo, pela minha ótica, ser visto como num livro comovente de seiscentas páginas da livraria. Literalmente narrando o cotidiano na minha cabeça como se estivesse lendo os versos de um escritor famoso.

Um dia desses, conquanto, acordei. Vislumbrei o meu quarto e constatei que já não era mais meu, tornara-se o lugar que eu dormia (e nem sempre, porque, meu deus, como eu amo escapar no meio da noite para a cama de minha mãe), e isso me sufocava. Bom, pouparia-nos muito tempo se eu fizesse uma lista do que não me sufocava, mas não é esse o ponto. Sem nem ao menos ponderar a respeito conscientemente, eu decidi, nos confins da minha subconsciência, que estava farta de reclamar sobre a ordem das coisas e que era hora de partir para a fase dezessete (posterior à negação, procrastinação, enrolação e muitos outros ãos): agir.


Comecei de pouquinho em pouquinho, sem pressa, sem afoite para não esgotar de uma vez a inspiração que movia-me e deixá-la ir embora antes mesmo de transformá-la num hábito. Arrumei todo meu guarda roupa no primeiro dia e, a satisfação ao ver as roupinhas no lugar e poder abrir toda a porta sem ter que aparar as peças caindo pelo chão, impregnou-me. No segundo dia, eu queria mais desse hormônio que me faz sentir que não estou esperdiçando meu tempo (como eu fiz pelos últimos quatro anos); portanto, na manhã seguinte (e note, eu não sabia o que era dormir antes das três e acordar antes do meio dia há pelo menos... UM BOM TEMPO), lá estava eu, arrumando meu criado mudo, minha cômoda, minhas gavetas da bagunça (aquelas que você joga tudo o que não tem outro lugar para colocar)... e, em três dias, já não havia mais o que arrumar. Pela primeira vez, em todos esses anos de procrastinação, meu quarto parecia saído de um catálogo brega dos anos dois noventa e todas as coisas estavam em seus devidos lugares.

Eu fiquei tão empolgada que decidi transformar a casa inteira. Não que ela tenha cinco quartos e três salas (uma para jantar, uma para ver tv e outra para "estar"), para falar a verdade, só tem uma, além de dois quartos, um banheiro e uma cozinha. Percebi que queria me sentir em qualquer lugar da minha casa como me sinto no meu quarto (atualmente). Descobri também, no meio dessa aventura, que faxina é minha catarse - além de escrever, of course - e que a ansiedade sai para passear quando eu estou concentrada apenas em arrumar e limpar. Pergunto-me porque não comecei isso antes, embora saiba, seguramente, que as coisas acontecem exatamente quando devem acontecer (meu mantra esquisito).

Encontro-me agora na missão de desbravar as centenas de buracos de minhoca espalhados pelos cantos, empilhados em potes de biscoito do natal e quilos infinitos de papeis que já não servem mais para nada. Confesso que jogar coisas fora está me dando um prazer quase sexual (hipérbole é meu nome do meio), a sensação de livrar-me de coisas inuteis e sentir que estou jogando fora energia velha, é mágica.

Aparentemente, me tornei a Monica Geller.


Este, definitivamente, deve ser o maior texto que eu já escrevi para o Café e acabei nem postando lá.

O caminhão da mudança está passando e só vai deixar o que é bom.
(porque eu sempre tenho que terminar meus textos com uma frase de efeito que raramente funciona)